minhas aulas de poesia sempre foram divididas entre:
1) o amor pelas poesias que eu não entendia sequer a construção sintática
pequei, senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.
[gregório de mattos]
transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
[camões]
2) o amor pelas poesias que o fagner e o renato russo transformaram numa pieguice sem dó
amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer;
[camões again]
minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
meus olhos andam cegos de te ver!
não és sequer razão de meu viver,
posto que tu és já toda a minha vida!
[florbela espanca]
3) o ódeo pela poesia do fernando pessoa que sempre me pareceu slogan da secretaria de obras na época do arruda
deus quer,
o homem sonha
e a obra nasce.
4) a falta de saco quando os professores empurravam letras do chico buarque pra gente como poesia (escafandrista, vê se pode)
não se afobe, não
que nada é pra já
o amor não tem pressa
ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta-restante
milênios, milênios
no ar
5) o amor incondicional pelo castro alves
‘stamos em pleno mar. doudo no espaço
brinca o luar – dourada borboleta;
e as vagas após ele correm… cansam
como turba de infantes inquieta.
6) as poesias fofas do mário quintana
se tu me amas, ama-me baixinho
não o grites de cima dos telhados
deixa em paz os passarinhos
deixa em paz a mim!
se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
7) a preguiça, ai, a preguiça!, das aulas de parnasianismo
vai-se a primeira pomba despertada…
vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sanguínea e fresca a madrugada…
[raimundo corrêa]
assim procedo. minha pena
segue esta norma,
por te servir, deusa serena,
serena forma!
[olavo bilac]