Aqui, Jazz.

16 16UTC março 16UTC 2011

saudades da academia

Filed under: de passagem,repensando — Anna @ 6:39 PM

minhas aulas de poesia sempre foram divididas entre:

1) o amor pelas poesias que eu não entendia sequer a construção sintática

pequei, senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

[gregório de mattos]
transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

[camões]

2) o amor pelas poesias que o fagner e o renato russo transformaram numa pieguice sem dó

amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer;

[camões again]

minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
meus olhos andam cegos de te ver!
não és sequer razão de meu viver,
posto que tu és já toda a minha vida!

[florbela espanca]

3) o ódeo pela poesia do fernando pessoa que sempre me pareceu slogan da secretaria de obras na época do arruda

deus quer,
o homem sonha
e a obra nasce.

4) a falta de saco quando os professores empurravam letras do chico buarque pra gente como poesia (escafandrista, vê se pode)

não se afobe, não
que nada é pra já
o amor não tem pressa
ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta-restante
milênios, milênios
no ar

5) o amor incondicional pelo castro alves

‘stamos em pleno mar. doudo no espaço
brinca o luar – dourada borboleta;
e as vagas após ele correm… cansam
como turba de infantes inquieta.

6) as poesias fofas do mário quintana

se tu me amas, ama-me baixinho
não o grites de cima dos telhados
deixa em paz os passarinhos
deixa em paz a mim!
se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

7) a preguiça, ai, a preguiça!, das aulas de parnasianismo

vai-se a primeira pomba despertada…
vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sanguínea e fresca a madrugada…

[raimundo corrêa]

assim procedo. minha pena
segue esta norma,
por te servir, deusa serena,
serena forma!

[olavo bilac]

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