Era da menina de estrela na testa que ele sentia mais saudades quando pensava no cerrado. Sentia falta do sol, claro, do céu azul, das flores tão coloridas em meio a poucas folhas sem cor, da universidade, do chão vermelho, do lago. Mas da menina – ah, quantas saudades da menina! – ele sentia uma falta física, uma saudade sentida, um buraco no peito.
E passou a andar com um buraco no peito por toda a cidade fria onde agora vivia. E lembrava da menina sempre, sempre. E quando lhe perguntavam se não sentia frio com aquele buraco ali descoberto no peito, naquela cidade que fazia escuro mesmo durante o dia, ele respondia que sim, mas que era um frio por dentro. Por que ele sentia falta dela de dentro pra fora.
E assim ele andava. De touca contra o vento gelado, de luvas contra o frio da água, e lembrava que a menina talvez estivesse mais radiante com o sol seco de Brasília, com o vento gelado contra o céu azul de rachar, o céu mais bonito do mundo. E lembrava da menina e da sua estrela na testa, e imaginava que ela estava de saia e de flores, e que vestia-se para sair. E que usava chinelas, porque não carecia de meias e porque tanto iria dançar que precisaria por os pés no chão para voltar à realidade.
E por causa da lembrança da menina, era ele que saia colorido nas ruas da cidade fria e ventosa, e nem parecia que estava agasalhado, em meio às pessoas cinzentas e apressadas que atrapalhavam seu passo com essa pressa toda. Mas mesmo vestido cor, e mesmo saudoso do sol, ele sentia esse frio e esse buraco no peito; era a menina que fazia falta.
E quando ele voltasse, e se ele voltasse, seria por causa da menina da estrela na testa. Da menina que fazia o cerrado ter sentido, e o sol ficar tão bonito nessa secura que faz a gente sangrar o nariz, e ainda assim ser feliz e acordar pelas manhãs.