se arrependeu de ter aceitado o convite assim que o viu entrar no restaurante com a namorada: ele havia ligado, perguntou o que ela ia fazer, queria conversar e comer alguma coisa. ela falou que ia ficar em casa mesmo, pediria uma comida e que ele poderia passar para um café. ele achou por bem irem comer fora, o que a obrigaria a se arrumar pra ir à rua – paciência. escolheu o restaurante japonês porque sabia que ela não diria não e ela, como previsto, aceitou até com uma certa empolgação, mas ele percebeu que ela estava meio preguiçosa hoje com aquela voz de sono ao telefone.
dali a dez minutos ligara de novo, perguntando meio sem jeito se a namorada poderia ir junto, já que desistira do cinema com as amigas pra passar a noite com ele. ela primeiro quis desmarcar, mas depois pensou que seria um tanto deselegante dizer não depois de ter dito sim. combinaram. ela se enfiou no casaco e foi andando encontrá-los, depois de rejeitar a carona dele. era sábado a noite e valeria a pena a caminhada.
chegou e os procurou ainda da calçada, olhando, meio nas pontas dos pés, através do vidro, mas ainda não haviam chegado. tirou os fones de ouvido e os guardou no bolso do casaco. entrou e sentou-se numa mesa de frente pra porta, ao fundo do recinto.
olhava meio desinteressada o cardápio quando os viu chegar: arrependeu-se na mesma hora de ter aceitado o convite. ele tinha aquela cara de menino limpo e cheiroso de sempre, a namorada uma cara azeda, como se preferisse estar num enterro.
entraram, ele com um sorriso lindo e ela com uma expressão de desgosto que só quem tem alergia a peixe pode aparentar num restaurante japonês. quando ele a beijou no rosto à guisa de boa noite, a namorada fez uma expressão com o canto da boca que a fez nem cogitar em se levantar para abraçá-la.
ele era seu melhor amigo desde a infância, e aquela era a namorada insegura e oxigenada de quem nunca ouvira uma palavra gentil. durante o jantar, a namorada tanto reclamou, e tanto não gostou de nada, que ele só não se sentiu mais embraçado porque a amiga fazia uma cara de quem nem se importava, e ele ficou minimamente confortável. não conversaram o que tinham pra conversar, e as reclamações da namorada fizeram com que ela roesse as unhas de dois dedos e arrancasse o esmalte das outras, deixando no colo e nos dentes uma nuvenzinha de verniz vermelho pulverizado.
o clima do jantar fora tão frio quanto o sashimi. ela nem quis pedir um café antes de pagarem a conta, e ele sabia que aquilo não era normal. quis, meio que para se redimir da pataquada que fora a janta, convidá-la para o café em casa, “tenho aquelas cigarrilhas que me trouxe ainda”, mas quando a namorada comentou do pudim que estava na geladeira ela percebeu que a moça ficaria para o café e declinou o convite. ele sabia que não era costume dela dizer não a uma boa conversa, quanto mais acompanhada de cigarrilhas e café, mas não atribuiu ao fato da presença já quase irritante da namorada, e sim que a amiga talvez quisesse ficar sozinha a partir dali. também estranhou ela não querer carona de volta pra casa, mas sabia que ela gostava das caminhadas e das noites de sábado.
ele se despediu dela dizendo que ainda estava com saudade e que precisavam conversar, ela respondeu só com um olhar e um gesto de sobrancelhas que ele entendeu muito bem. a namorada já tinha entrado no carro e mexia no som, ora aumentando, ora abaixando o volume. teve ganas de lhe puxar os cabelos e resolveu deixá-los de uma vez por todas.
seguiu até o fim do caminho, fazendo o sentido oposto ao de casa só para não tornar a encontrá-los de novo: ah, o embaraço de rever quem nós recém nos despedimos. ao final, entrou num beco e voltou pela via de baixo. era sábado a noite, o clima estava bom e ela caminhava a passos firmes pelas ruas moderadamente movimentadas. trocou a música do ipod pelo barulho diverso que fazia. chegando quase em seu prédio, pensou no café e resolveu entrar em algum bar para tomá-lo. mas lembrou também o quanto seria custoso uma mulher sozinha na noite conseguir um pouco de paz para degustar da bebida e do tabaco sem um ou outro por vezes se oferecendo para companhia, e voltou dez passos atrás, subindo para o seu apartamento.
abrindo a porta, a luz do corredor iluminou num facho a sala completamente silenciosa. ela largou as sapatilhas ao pé da porta como para não incomodar, mas entrou fazendo barulho com as chaves. jogou a bolsa e o casaco no chão, ligou o som meio que no automático – gestos habituais de quando chegava em casa – e rumou para a cozinha.
enquanto a cafeteira italiana estava no fogo, acendeu um cigarro e abaixou-se na estante à procura de algo pra ouvir. clichê delicioso é pegar um vinil para escutar num sábado à noite. não ligou a luz, e procurava os títulos meio às cegas, iluminando as capas com a brasa. estava na dúvida entre dois. o cheiro do café ficou mais forte, e ela levantou-se para apagar o fogo enquanto se decidia.
voltou com a caneca cheia na mão, colocou um dos discos, procurou pela garrafa de conhaque e pelas cigarrilhas. a música começara, e ela sentiu como se não houvesse no mundo nada mais adequado para aquele momento. abriu a cortina que dava para a varanda e a luz da rua entrou mansa em casa. sentou-se no chão de pernas cruzadas da forma que sua mãe chamava ‘borboleta’. na adolescência, descobriu que esse era (também) o nome de uma posição que constava no kama sutra, e sempre se chateava de não poder usar essa expressão na frente de alguém sem que fizessem piada.
o primeiro gole do café quente com conhaque arrepiou-lhe os braços, numa sensação de conforto que se acentuava com o contraste do ar frio e sem vento que vinha de fora. acendeu a cigarrilha e aspirou com as mãos em concha. enquanto sentia a fumaça na boca, fechou os olhos. com a cabeça levemente jogada pra trás, ouvia a música com o mesmo prazer com que sentia o gosto do tabaco, do café e do álcool, e o frio na pele. soltou a fumaça, tomou mais um gole de café e se encostou no umbral da porta. hora ou outra passava um carro, rápido, na rua. pessoas caminhavam em grupos pequenos, um e outro passava sozinho. já não sabia o que era cheiro, o que era luz, o que era música. era tudo uma coisa só. a cigarrilha com sua luz fraca, a fumaça do café, as pessoas que passavam, o som que vinha de dentro. se deixou ficar assim por longos momentos. a lembrança do jantar pouco a pouco foi ficando distante, assim como a do caminho que fez para chegar em casa, a escolha do disco, a preferência pelo café com conhaque. tudo tinha sempre sido o agora, esse agora comprido que não passava.
ela estava imersa em gostos, seu contato com o mundo era profundamente sensorial. eram já três da manhã de um sábado a noite.
Tá faltando um zumbi pra agitar a trama.
Comentário por M.C. Arnold — 21 21UTC novembro 21UTC 2010 @ 5:09 AM |